Inovação tecnológica X Inovação psicossocial: o verdadeiro impacto das máquinas. – Entrevista com Nuno Rebelo dos Santos

Enquanto ainda tentamos assimilar com muita dificuldade os impactos da inovação tecnológica, as máquinas automatizadas continuam conquistando espaço no mercado de trabalho. E não é para menos; afinal, elas são mais precisas, não se cansam de trabalhos repetitivos, não reclamam direitos trabalhistas nem ficam doentes. Se isso não bastasse, agora fazem previsões e descobrem novas soluções para problemas, combinando milhares de dados numa velocidade impressionante. Esse é o papel da temida Inteligência Artificial (IA).

Mas e quanto a nós? Como devemos nos comportar frente a essas transformações em nossa forma de trabalhar? Sobre o assunto conversei com o professor PhD de psicologia organizacional e metodologia de investigação, na Universidade de Évora, Portugal, Nuno Rebelo dos Santos. Com vários artigos publicados em revistas internacionais, professor Nuno é um grande pesquisador nas áreas de liderança ética e virtuosa, trabalho digno, cooperação nas organizações e cooperação global e gestão do desempenho. Confira o nosso bate-papo.


Bianca: Há quem acredite que o trabalho humano será substituído por máquinas, e haverá muito desemprego, em um futuro próximo. Mas por outro lado, há quem acredite que a Inteligência Artificial será um grande suporte para o homem e que isso trará mais oportunidades de emprego. Qual a sua opinião?

Nuno: É difícil prever o futuro, saber o que vai acontecer quanto a uma nova tecnologia. Claro que existe uma probabilidade elevada de a IA (Inteligência Artificial) substituir muito do trabalho humano. Mas também existe a possibilidade desta ser um complemento de nossas atividades, colocando-se ao serviço dos seres humanos. É o conceito de hybrid intelligence, que aprendi com a minha filha, Ana Daniela Rebelo, que estuda justamente estes assuntos nos campos da saúde e das artes.

“Existe uma probabilidade elevada da Inteligência Artificial substituir muito do trabalho humano. Mas também existe a possibilidade desta ser um complemento de nossas atividades”

Nuno Rebelo dos Santos

Vivemos num ritmo de inovação tecnológica muito acelerado, sem que haja a correspondente inovação ao nível psicossocial. Os sistemas psicológicos e os sistemas sociais inovam muito menos, e apenas aproveitam a carona da inovação tecnológica. Isso traz problemas de turbulência, tensão e sofrimento. É o que se passa no mercado de trabalho. Cada vez que é introduzida uma inovação tecnológica aumenta-se a tensão da sociedade como um todo. Precisamos investir muito mais no desenvolvimento da maturidade dos trabalhadores e das empresas, para que a tecnologia seja colocada ao serviço de causas virtuosas.

Bianca: Por dia nascem, mais ou menos, 200.000 pessoas no mundo e provavelmente 85% delas terão profissões que ainda não existem, segundo o Institute for the Future, da Dell. Em suas análises e estudos, que carreiras existirão e quais deixarão de existir?  Quais vagas do mercado devem ser extintas e quais devem surgir?

Nuno: Todas as carreiras poderão ser afetadas por uma acentuação das inovação tecnólogicas. Sempre que, em qualquer carreira o trabalhador tenta, sem se dar conta, competir com o computador, ele perde e não tem futuro. Sempre que humaniza o modo como trabalha, torna-se insubstituível. Também me parece provável que o trabalho seja reconfigurado no seu significado, e múltiplas dimensões surgirão com muito mais expressividade, não apenas a dimensão da produção objetiva.

“Vivemos num ritmo de inovação tecnológica muito acelerado, sem que haja a correspondente inovação ao nível psicossocial”.

Nuno Rebelo dos Santos

Bianca: Em sua opinião, o que será essencial (ou já é essencial) para os profissionais nas próximas décadas? Como nos prepararmos para esse futuro? 

Nuno: A libertação do trabalho manual é um feito civilizacional inestimável. Mas é necessário que aquelas pessoas que centrariam o seu trabalho no esforço físico façam outras coisas e se empenhem nessas outras coisas. O mesmo pode ser dito das tarefas administrativas. E o mesmo ocorrerá com a introdução da IA, se queremos adotar uma perspetiva de hybrid intelligence.

Por isso eu diria a todos os profissionais: Desenvolvam-se como pessoas, em todas as dimensões do ser, ao longo de toda a vida. Procurem focar em usar a sua criatividade e inovação para resolver problemas. Aprendam a ser relacionar com as pessoas da sua atividade profissional e deem atenção ao papel que o seu trabalho tem na sociedade como um todo. E por último eu diria: aprendam a mexer em computadores e seus softwares, pois é uma nova linguagem para todas as profissões.

Bianca: Na sua opinião, a educação formal oferecida hoje em todos os níveis de ensino tem dado conta de preparar um novo tipo de profissional?

Nuno: A educação formal é uma riqueza civilizacional de valor inquestionável. Precisamos de ter isso muito presente. Podemos fazer melhor, mas enquanto tivemos o que temos, continuemos tendo, porque é muito melhor do que não ter. A educação renova a sociedade, e faz uma coisa extraordinária, a que chamo cooperação intergeracional. É principalmente através da educação formal que temos a oportunidade de sentir gratidão às gerações passadas pelo legado de cultura que recebemos.

Quanto às melhorias, do meu ponto de vista há dois aspetos na instituição educativa que precisam de uma revisão. O primeiro é ampliar o foco em relação à transmissão de conteúdo e não limitá-lo à aquisição de competências, que, apesar de ser importante, despreza dimensões de cidadania e desenvolvimento pessoal. O segundo aspecto é o que chamo de doença da competitividade. Os sistemas de ensino tendem a criar pessoas que consideram que o valor delas depende da desvalorização dos outros, e isso nos leva a um modelo social doentio e infantil.


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