Mulher idosa sorrindo

Velho é o seu preconceito

Já parou pra pensar que em nossa sociedade criança é criança, adolescente é adolescente, adulto é adulto e velho…bem, velho é idoso, melhor idade, idade de ouro, terceira idade. Por que? Qual o problema em relação ao termo “velho”? Neste artigo, baseado em um dos episódios que produzi para o programa Longeviver, quero propor uma reflexão de como definimos o que é ser velho. Falar sobre isso nos ajuda a ter clareza sobre o contexto em que vivemos e lança fora os preconceitos que tanto nos atrasam.

POR QUÊ NÃO, VELHO?

“A terminologia ideal para se falar sobre pessoas com 60 anos ou mais é algo complicado. O termo idoso surgiu para tirar uma carga pejorativa do termo velho. Mas isso não adiantou muito. Independente do termo que usamos ainda olhamos para os 60+ como pessoas frágeis e doentes”, me disse Márcia Tavares, fundadora da WeAge, empresa que é referencia em gestão da longevidade da força de trabalho no Brasil.

Não é a terminologia que traz o peso pejorativo em relação aos 60+ e sim a nossa maneira de enxergá-los. Em outras palavras, o problema não está com a palavra, está com a gente. Idoso, melhor idade, semi-novo, idade da sabedoria…velho. Os termos são os mais variados para categorizar a fase da velhice. E de tempos em tempos surge um novo nome. Há quem se identifique, há quem torça o nariz e há aqueles que não se importam com isso.

Segundo a gerontóloga social, Vivian Araújo, não existe um padrão de se envelhecer. Cada um tem a sua velhice e se define de diferentes formas. “Para quem está com a saúde mais debilitada pode ser que o termo melhor idade não o defina, mas para outro que trabalhou a vida toda e agora desfruta de uma vida tranquila pode ser que o termo tenha outro significado”, afirma.

Mas e quando o 60+ não gosta de ser chamado de idoso e muito menos de velho? A melhor maneira de lidarmos com isso, segundo Vivian Araújo, é perguntar como a pessoa gostaria de ser chamada. Assim evitamos ofendê-la com termos que para ela não a definem. Respeito é bom e todo mundo gosta.

COMO VOCÊ GOSTARIA DE SER CHAMADO?

Dona Cidinha diz não se importar com os termos para a fase da velhice. Se sente bem e rejuvenescida. “Acho que a velhice só me trouxe coisas boas. Sinto que o tempo está a meu favor. Me chame como quiser”. Aos 80 anos faz questão de andar de moto com o filho, para sentir o vento no rosto e se lembrar de quando ela mesma pilotava. Me confessou também que desde menina tem paixão por pentear os cabelos, combinar roupas e não saia de casa sem antes se olhar no espelho. “Até hoje sou assim”, diz.

Sônia Machado, de 65 anos, saiu da capital paulista em busca de sossego em meio a natureza. Ela e o esposo optaram por um novo estilo de vida após os 60 anos de idade. Assumiu os cabelos brancos e não de identifica como velha. É um termo que não lhe agrada nem um pouco. “Eu acho que tudo o que é velho não serve mais pra nada. E idoso é aquele que, para mim, tem mais de 80 anos. Portanto, eu não me identifico com nenhum dos termos. Me chame apenas de Sônia”.

Jairo Cunha, de 66 anos, esposo de Sônia, me disse que sempre dá liberdade para as pessoas o chamarem do que quiserem. “Não ligo. Desde que não faltem com respeito”. E em meio a gargalhadas brincou que se preocupa com os mais jovens que não conseguem acompanhá-lo.

MAS AFINAL, O QUE É SER VELHO?

Enxergar o velho positivamente ou negativamente vai depender dos olhos de quem vê. A cultura nos influencia e determina muitas vezes o que devemos ou não pensar. Falar sobre a velhice é falar sobre a etapa mais longa da vida. Não há como ignorá-la e redefini-la pode ser libertador.

“A pessoa passa a ser categorizada como velha quando passa a apresentar sinais que a sociedade admite como indicadores de velhice. São eles sinais corporais – como pele, cabelo – e sinais sociais – um certo afastamento”, diz a psicóloga e gerontóloga Anita Neri. O problema, segundo a especialista, é quando ligamos esses sinais com doença, fraqueza ou inutilidade, e os 60+ de hoje pouco tem a ver com isso. “Eles logo perguntam ‘de que velho você está falando?”, diz. Eis a revolução da longevidade.

Em busca de mais reflexões conversei também com a antropóloga Guita Grin que me alertou que a além do preconceito social “o velho tem preconceito contra ele mesmo e não assume para si e nem para os outros que está envelhecendo”. Segundo a especialista, não dá pra definir o que é velhice somente pela idade cronológica e é isso o que torna o assunto tão amplo e diversificado.

“O conceito de velhice está totalmente ultrapassado”, foi o que me disse o psicanalista Jorge Forbes. “Marcar a velhice com um número de anos é fácil, o problema é que cada um tem um tempo biológico diferente. Temos pessoas com mais de 60 anos que correm maratonas e outras que se quer conseguem mais andar”, afirma.

VELHICE: UMA FASE DA VIDA

No contexto social o velho é visto de muitas maneiras sob diferentes olhares. Mas não há como defini-lo, estereotipá-lo. O ideal é que cada um viva a sua velhice, sabendo quem é de fato, o que gosta, o que o faz feliz, livre dos preconceitos.

O que são a infância e a juventude se não fases da vida? A velhice segue o ciclo. Existe sim um critério cronológico, mas este não esgota o debate sobre o que de fato é ser velho. Pelo menos, não deveria, como vimos até aqui.

Com a revolução da longevidade surge uma nova geração de velhos que nada tem a ver com decadência ou isolamento. São velhos não porque passaram dos 60 anos, mas porque estão em uma fase da vida, assim como qualquer outra. Fase que tem, sim, muitas páginas em branco e é privilégio de quem não morreu jovem.

Trecho do programa Longeviver “O que é ser velho”.
Assista na íntegra: https://bit.ly/2WdjNR5

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